Publicado por: lucianonanzer | terça-feira, 23 fevereiro 2010 - 12:07 AM

Reflexão Bíblica – Padre Paulo Mazzi

“Devo te conduzir ao deserto, para falar ao teu coração” (Os 2,16)

Aos poucos, você é absorvido pelos acontecimentos, sem ter tido tempo de assimilá-los dentro de si. Aos poucos, você se afasta daqueles que ama, por não ter tempo para conviver com eles, para escutá-los ou para ser ouvido por eles, para senti-los e para dizer-lhes como você tem se sentido na relação. Aos poucos, você perde o contato com a fonte de água viva, que é Deus, e passa a tentar sobreviver com a escassa água captada pelas cisternas que constrói, mesmo sabendo que se trata de uma água que não o sacia, porque suas cisternas são rachadas (cf. Jr 2,13). Por esses motivos e tantos outros que não cabem citar aqui, Deus quer conduzi-lo ao deserto, para lhe falar ao coração.

Mais do que um lugar, deserto é uma experiência, uma situação, uma fase. O deserto é uma morada que você cria dentro de si, onde possa se recolher para se defender das vozes perturbadoras do ambiente. É o momento de experimentar a solidão, de tomar consciência da sua fraqueza e mesmo da sua impotência diante de determinadas situações. O deserto é o momento de se confrontar com o seu lado feio, frágil, sujo, imperfeito; momento de ouvir a voz da qual você muitas vezes foge: a voz da sua consciência, a voz da verdade, a voz do seu Deus e Senhor.

“Você tem sede de quê? Você tem fome de quê?” (Titãs, Comida)

Moisés ficou quarenta dias sobre o Monte Sinai, situado no deserto, procurando discernir a vontade de Deus para a sua vida e para a vida do seu povo. Jesus ficou quarenta dias no deserto, confrontando-se entre os apelos do Pai e os apelos do maligno em seu coração. Israel viveu quarenta anos no deserto não somente experimentando Deus de uma maneira nova, mas sendo experimentado por Deus, sendo provado por Ele, para revelar o que havia, de fato, em seu coração. Essa provação veio através da sede e através da fome. Por meio da água que saiu da rocha, Israel tomou consciência de Deus é a única fonte de água viva; por meio do maná – pão descido do céu – se convenceu de que não vivemos daquilo que as nossas mãos produzem: vivemos daquilo que recebemos de Deus, daquilo que permitimos que Suas mãos façam em nós.

Deus o convida a viver o tempo da Quaresma como um período diferente, onde algumas coisas devem diminuir e outras devem aumentar. No seu dia-a-dia, você é convidado a diminuir o barulho e a aumentar o silêncio; a diminuir o falar com os outros e a aumentar o falar com Deus (oração) – mas também aqui, a diminuir o seu falar a Deus e aumentar o seu escutar a Deus (silêncio); a diminuir o seu consumir (jejum) e a aumentar o seu viver daquilo que Deus lhe dá por meio de Sua palavra; a diminuir o seu olhar somente para si e a aumentar a sua visão, enxergando o próximo e deixando-se afetar por suas necessidades (esmola).

O sacrifício do filho

Na Quaresma, é comum que você se disponha a fazer algum “sacrifício”. Esse esforço exercita a sua liberdade e faz crescer em você a consciência de que você é capaz de autodomínio: mesmo não podendo negar seus instintos, você não precisa ser comandado por eles – você é capaz de administrá-los. Num determinado momento da vida de Abraão, Deus o desafiou sacrificar o filho a quem tanto amava, sobre uma montanha (cf. Gn 22,2). O que na sua vida, hoje, poderia ser esse “sacrifício do filho”?     Na verdade, o sacrifício que mais nos transforma não consiste em oferecer a Deus coisas ou sacrifícios parciais. O sacrifício que nos transforma é aquele em que oferecemos a Deus “nosso filho único, aquele a quem tanto amamos”, ou seja, aquilo que entrou em nossa vida e ocupou o nosso coração, restringindo a nossa capacidade de amar. Se Deus nos pede “o sacrifício do filho” é porque Ele quer que amemos muito mais do que estamos amando. É esse amor a única força capaz de nos transformar. No fundo, é nisso que consiste a conversão.

Pe. Paulo Cezar Mazzi


Responses

  1. Linda e muito reflexiva. Trata-se das passagens das leituras da liturgia da missa do primeiro domingo da quaresma. Parabéns Luciano por divulgar! Isto é evangelizar.

  2. Parabéns Luciano.

    Espero que as pessoas que te seguem e eventualmente leem suas postagens parem para refletir um pouco sobre a fé, a falta dela e mais que isso: sobre o fato de algumas destas pessoas que participam, não por em prática o que aprendem com a Liturgia.
    É preciso aplicar na vida o que se aprende na igreja ou no templo que as pessoas professam sua fé.
    A vida em comunhão é fazer o bem ao proximo. Vc está evangelizando. Parabens AMIGO.

    ( Ando afastado da igreja e fiquei feliz ao ler sua postagem ).

    BOA SEMANA.

  3. Gostei da mensagem do Pe. Paulo, para nós sempre o Paulinho que conheci de quando era garoto. Parabéns! A propósito do encontro de Deus conosco, no deserto, entendo que não apenas temos de diminuir o barulho e buscar o silêncio, ou diminuir o falar e aumentar o ouvir a Deus, é necessário seguir a orientação de Deus;e, como Isaque fez, reabrir as antigas fontes sem deixar de cavar novos poços, e tenho certeza o deserto florescerá! (Genesis 26.18-22 e 25 e 32).

  4. gostei da mensagem do PADRE PAULO, precisamos nos abastecer mais da palavra, para que nosso Espírito seja mais fortalecido e esclarecido.
    para isso temos que dar ouvidos `a palavra de DEUS,
    O PADRE PAULO é um grande profeta, escolhido por DEUS e que vem trazendo para os coraçôes de muitos:, o conforto,o alimento,a alegria e muito mais .Esse é o ESPÌRITO. Amém.


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