Publicado por: lucianonanzer | domingo, 4 abril 2010 - 8:46 PM

Reflexão Bíblica – Padre Paulo Mazzi

Palavra de Deus: Atos 5,12-16; Apocalipse 1,9-11a.12-13.17-19; João 20,19-31 (Missa do 2o. domingo da Páscoa)

            Estamos no tempo pascal. O evangelho afirma que a cada 1º. dia da semana, mais especificamente, no domingo, “no dia do Senhor” (Ap 1,10), Jesus visita a sua Igreja, visita o coração dos seus discípulos, deixando ver que as marcas da sua morte de cruz estão presentes em seu corpo glorificado. O que essas marcas querem nos dizer? Primeiro: elas são a consequência de quem amou até o fim (cf. Jo 13,1). Segundo, elas nos lembram que o nosso morrer não significa a transferência da nossa alma para um outro corpo, mas a glorificação daquele mesmo corpo que lutou em favor da vida, e nessa luta se feriu, mas esse ferimento foi integrado na ressurreição. É por isso que nós, cristãos, cremos na ressurreição da carne. 

            Olhando para as chagas de Jesus Ressuscitado, lembramos que o nosso corpo, que carrega as marcas da morte de Jesus, carregará também as marcas da sua ressurreição, como está escrito: “Incessantemente e por toda a parte trazemos em nosso corpo as marcas da morte de Jesus, a fim de que a vida de Jesus seja também manifestada em nosso corpo” (2Cor 4,10). Quais marcas estão em você, no seu corpo, na sua alma, no seu espírito? Só se fere quem luta. Você se orgulha ou sente vergonha das suas cicatrizes? Nossas marcas têm uma história; nossas cicatrizes têm um por quê. Embora vivamos na cultura do “esteticamente correto”, não é sensato tentar eliminar de nós aquilo que temos de mais autêntico, de mais humano, de mais nobre, que é a luta por um mundo melhor, pelo bem da nossa família, pela preservação do meio-ambiente, pela justiça em nosso ambiente de trabalho, pela defesa dos mais fracos.

            As portas do lugar onde a Igreja se reunia, onde os discípulos se encontravam estavam fechadas. Às vezes, as portas da nossa Igreja se fecham pela própria atitude de algumas pessoas que representam essa Igreja, provocando escândalos. Outras vezes, pessoas fecham a porta de sua fé à Igreja por considerá-la uma instituição totalmente corrompida, enxergando nela apenas o joio. Existem também pessoas que, por terem sido feridas na sua história de vida, carregam consigo muita raiva, e sem se dar conta, transferem para a Igreja a raiva que sentem por quem as feriu. Sejam quais forem os motivos pelos quais as portas estão fechadas ou se fechando, nenhuma dessas portas é obstáculo ou impedimento para Jesus Ressuscitado entrar e ficar junto da sua Igreja, junto dos seus discípulos.

            A nós que, como os primeiros discípulos, nos sentimos intimidados e humilhados por pessoas que decidiram jogar fora o bebê junto com a água do banho, Jesus nos comunica o dom da sua paz, nos envia em missão e nos reveste com a força do Alto, que é o Espírito Santo. Como Tomé, nossa fé parece não ser capaz de enxergar Jesus no meio da sua Igreja. Consequentemente, temos dificuldade em crer na sua ressurreição, na sua vitória sobre o pecado e sobre a morte que ainda hoje ferem a Igreja. A nós, que nos escandalizamos com as feridas abertas por algumas pessoas da nossa Igreja na vida de inocentes, e não menos escandalizados pelas feridas abertas no rosto da própria Igreja, Jesus nos convida a tocar nas suas feridas, e a compreender que a fé sempre será uma luta, um combate, e quem entra nesse combate sairá igualmente vitorioso e ferido.

            João nos lembra da nossa condição de discípulos de Jesus Cristo no mundo atual: irmãos e companheiros na tribulação e também no Reino e na perseverança em Jesus. Às vezes, estamos caídos como mortos. Mas “no dia do Senhor” Jesus Ressuscitado coloca sua mão direita sobre nós e nos diz: “Não tenhas medo. Eu sou (…) aquele que vive. Estive morto, mas agora estou vivo para sempre. Eu tenho comigo as chaves da morte e da região dos mortos”. Por isso, entregamos a Jesus ressuscitado as portas que se fecharam e que estão se fechando. Ele tem as chaves para abri-las e as abrirá, na medida em que as pessoas não se sentirem violentadas com a sua presença e com o seu evangelho. 

            Uma última imagem que nos ajuda na oração desta 2ª. semana da Páscoa: a sombra de Pedro, procurada como lugar de cura (cf. At 5,12-16). Depois de 21 séculos, a sombra do nosso Papa é temida e vista, por uma parte da imprensa mundial, como nociva para a sociedade. Para alguns setores da imprensa, formadores da opinião pública, a sombra de um padre é a sombra de um pedófilo, omitindo a verdade de que 85% dos casos de pedofilia acontecem com crianças ou adolescentes que viveram ou vivem à sombra de alguém da família ou de alguém tido como “amigo” da família.   

            Pedro muitas vezes andou na contramão das propostas de Jesus, e na hora mais decisiva, o negou. Restabelecido pelo perdão de Jesus, comprometeu-se a amá-lo cuidando do Seu rebanho, a Igreja. Por isso, sua sombra tornou-se um lugar de cura. Que a minha e a sua sombra, como discípulos de Jesus Cristo, possa curar também as pessoas que nos procuram, apesar das nossas próprias feridas ainda abertas, abertas, mas confiadas às chagas de nosso Senhor ressuscitado. 

                                                                                                                                                                                                                Pe. PauloCezar Mazzi

 


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